Declarações de Anthony Garotinho, candidato ao governo do Rio pelo Republicanos, foram classificadas como fato, fake ou parcialmente corretas após entrevista realizada nesta quinta-feira (10). Entre os temas analisados estão roubos de carga, juros, prisões, segurança pública e episódios envolvendo ex-integrantes do governo fluminense.
A afirmação de que oito caminhões são roubados por dia no Rio foi considerada verdadeira. O Instituto de Segurança Pública (ISP) registrou 3.114 roubos de carga no Estado do Rio em 2025. Com base nesses dados, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) calculou a média diária de oito caminhões roubados.
Já a declaração sobre investidores que captariam recursos no exterior a 2,5% e emprestariam ao governo brasileiro a 14% foi classificada como não totalmente correta. A taxa básica de juros estava em 14% ao ano após decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil em agosto de 2026. No entanto, os títulos públicos têm prazos, indexadores e remunerações diferentes. Também não existe uma taxa única de 2,5% para operações internacionais, que envolvem juros, câmbio, custos e riscos variados.
Segurança e investigações
Garotinho afirmou que 185 mil carros foram roubados ou furtados no Rio no ano passado. A informação foi considerada falsa. O ISP contabilizou 25.235 roubos e 17.490 furtos de veículos em 2025, totalizando 42,7 mil ocorrências. O levantamento inclui automóveis, caminhões, motocicletas, caminhonetes e vans, entre outros veículos.
Também foi considerada falsa a relação apresentada entre um episódio envolvendo o delegado Maurício Demétrio Afonso Alves e a investigação contra Álvaro Lins. Demétrio esteve envolvido, em 2003, em um caso com a Tribel, empresa do grupo Bayer, em Belford Roxo. Na época, ele trabalhava na Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente e acabou transferido.
A investigação contra Lins, porém, começou com a Operação Gladiador, deflagrada pela Polícia Federal em dezembro de 2006 para apurar uma organização que dava proteção a contraventores. A partir dela, a polícia chegou à Operação Segurança Pública S.A., que investigou favorecimento ao grupo de Rogério Andrade e exploração de jogos ilegais. Demétrio foi uma testemunha importante, mas o processo também reuniu documentos, outros depoimentos e interceptações telefônicas.
Lins foi condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região a 23 anos, quatro meses e 16 dias de prisão. Em 2024, Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, determinou que o processo fosse enviado à Justiça Eleitoral.
A fala de Garotinho sobre ter ficado detido por menos de 29 dias também foi classificada como falsa. O ex-governador foi preso cinco vezes, entre novembro de 2016 e outubro de 2019, permanecendo detido por 50 dias no total. A marca de 29 dias corresponde apenas à terceira prisão, entre 22 de novembro e 21 de dezembro de 2017, na Operação Caixa d’Água.
Nas demais prisões, ele ficou detido por oito dias em 2016, 13 dias em setembro de 2017 e menos de 24 horas em setembro de 2019. Na Operação Caixa d’Água, Garotinho e Rosinha Garotinho foram acusados de integrar uma organização criminosa que arrecadava recursos de forma ilícita para campanhas. Uma das acusações apontou o recebimento de R$ 2,6 milhões via caixa dois da JBS.
Governo e eleições
A afirmação de que Garotinho deixou o governo com 80% de aprovação foi considerada falsa. Ele governou o Rio entre janeiro de 1999 e abril de 2002. Dados do Datafolha não apontam esse percentual. O maior índice registrado foi de 68%, em 11 de junho de 1999. Na última avaliação, publicada em 2 de julho de 2001, 61% aprovavam a gestão, 29% a consideravam regular e 8% a reprovavam.
Por outro lado, foi considerada verdadeira a declaração de que sua sucessora venceu a eleição para o governo do Rio no primeiro turno. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que Rosinha Garotinho foi eleita com 51,3% dos votos válidos nas eleições de 2022. Também é correto que Garotinho foi o candidato à Presidência mais votado no estado, com 42,18%, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, que obteve 40,17%.
A afirmação sobre o chamado “propinoduto” foi classificada como falsa. O esquema envolveu fiscais da Fazenda do Rio de Janeiro e da Receita Federal, que cobravam propinas de empresários e enviavam recursos para contas na Suíça. As irregularidades ocorreram entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000.
As investigações começaram em 2002 pelo Ministério Público da Suíça e ganharam repercussão em 2003, no primeiro ano do governo de Rosinha. Rodrigo Silveirinha, apontado como chefe do esquema, foi subsecretário-adjunto de Administração Tributária entre 1999 e 2002, durante o governo de Anthony Garotinho. Em janeiro de 2003, Rosinha o nomeou presidente da Companhia de Desenvolvimento Industrial, mas o exonerou dez dias depois.
Silveirinha e outros envolvidos foram condenados em 2003. Ele foi preso no mesmo ano e solto em 2004 por habeas corpus. Morreu em 2023. No ano passado, a Justiça Federal determinou que seus herdeiros devolvessem mais de R$ 280 milhões aos cofres públicos.
Estruturas de segurança
Foram consideradas verdadeiras as declarações de Garotinho sobre a construção da sede do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a criação do Instituto de Segurança Pública (ISP), a implantação do Grupamento Especial Tático Móvel (GETAM) e a ativação do Grupamento Aéreo e Marítimo (GAM).
O ISP foi criado em 28 de dezembro de 1999, pela Lei Estadual nº 3.329/1999. A sede própria do Bope, na comunidade Tavares Bastos, foi inaugurada em dezembro de 2000. O batalhão já existia desde 1978, portanto a afirmação se refere à construção da sede.
Documentos oficiais registravam a atuação do GETAM em 2000, com unidades em Niterói e na Baixada Fluminense. O GAM foi ativado em 21 de março de 2002 para operações aéreas e marítimas da Polícia Militar. A formalização por decreto ocorreu posteriormente, em 2004.



