BRASÍLIA — A pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência enfrenta novos questionamentos após a divulgação de conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento de um filme em homenagem a Jair Bolsonaro. O senador nega irregularidades e afirma que buscava patrocínio privado para a produção, sem oferecer vantagens ou intermediar negócios com o governo.
Vorcaro está preso e negocia um acordo de delação premiada. Segundo as informações divulgadas, ele teria repassado ao menos R$ 61 milhões para o filme no ano passado. O acordo de financiamento poderia chegar a R$ 134 milhões. Flávio teria cobrado a liberação do restante dos recursos.
O episódio se soma a acusações antigas relacionadas ao período em que Flávio foi deputado estadual no Rio de Janeiro. Entre elas estão suspeitas de rachadinha, compra de imóveis com dinheiro vivo e vínculos com o miliciano Adriano da Nóbrega. O senador nega as acusações e afirma que elas resultam de perseguição política.
A tentativa de apresentar uma imagem moderada
Flávio tem usado as redes sociais para se diferenciar do pai e buscar eleitores que rejeitam o estilo e as posições mais extremas de Jair Bolsonaro. Em um vídeo publicado em abril, sua esposa, Fernanda, disse que ele era um Bolsonaro moderado e afirmou tê-lo reeducado. No mesmo conteúdo, o senador declarou ser o Bolsonaro que tomou vacina.
A estratégia também incluiu publicações sobre o Carnaval, os feminicídios, a falta de creches e referências a Berta Lutz, Antonieta de Barros e Maria da Penha. Para a senadora Damares Alves, porém, Flávio não tenta parecer moderado: ele teria esse perfil e capacidade de diálogo.
O diretor de risco político da AtlasIntel, Yuri Sanches, avalia que o caso envolvendo Vorcaro dificulta a tentativa de reduzir a rejeição ligada ao sobrenome Bolsonaro e às acusações de corrupção. Na avaliação dele, Flávio se tornou a principal opção de eleitores bolsonaristas e antipetistas, mas ainda disputa uma parcela de 10% a 12% do eleitorado sem alinhamento automático com nenhum dos lados.
Acusações sobre o gabinete na Alerj
Flávio atuou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro por 16 anos, de 2003 a 2018. A investigação sobre seu antigo gabinete começou depois que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou movimentações incompatíveis com o salário de Fabrício Queiroz, então chefe de gabinete.
Em 2020, o Ministério Público acusou Queiroz de operar um esquema que recolhia parte dos salários de funcionários. Segundo a denúncia, 12 funcionários fantasmas receberam R$ 6,1 milhões, e pelo menos R$ 2 milhões teriam chegado à conta de Queiroz. Outros R$ 2 milhões teriam sido sacados em espécie para a organização criminosa.
A denúncia também mencionou o pagamento, em dinheiro vivo, de 169 boletos da escola das filhas de Flávio e do plano de saúde da família, entre 2013 e 2018, no total de R$ 247 mil. Queiroz admitiu receber parte dos salários, mas disse que os valores serviam para contratar pessoas informalmente. Flávio repete essa explicação e afirma que nunca respondeu criminalmente pelo caso.
O processo não avançou após decisões judiciais que anularam provas e questionaram a validade de medidas de investigação. O Ministério Público do Rio de Janeiro informou que o caso foi encerrado depois que o ministro Gilmar Mendes rejeitou, em fevereiro de 2025, um pedido para reabrir a investigação.
Relações com policiais acusados de milícia
Durante seus quatro mandatos como deputado estadual, Flávio homenageou policiais militares, entre eles Adriano da Nóbrega, em 2003 e 2005. Adriano foi expulso da Polícia Militar em 2014 e depois acusado de chefiar o Escritório do Crime. Ele morreu durante uma operação policial na Bahia, em 2019.
A mãe de Adriano, Raimunda Magalhães, e sua então esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam no gabinete de Flávio até 2018. O senador afirma que não conhecia as acusações contra Adriano quando o homenageou e que manteve as duas funcionárias porque considerava que realizavam um bom trabalho.
Flávio também nega defender milícias. O ex-deputado Marcelo Freixo afirma, por outro lado, que ele representava o mesmo projeto político do pai. Freixo lembra que Flávio e Chiquinho Brazão foram os únicos deputados a votar contra a criação de uma comissão parlamentar de inquérito sobre milícias na Assembleia Legislativa, em 2008.
Na disputa eleitoral, o PT tem associado Flávio à extrema-direita e sustenta que não existe um Bolsonaro moderado. O senador, que aparece em crescimento nas pesquisas desde que foi escolhido pelo pai para disputar a Presidência, também enfrenta críticas dentro da direita. A vereadora Janaína Paschoal afirmou que ele não seria moderado, mas fraco, e defendeu outros nomes para a disputa.




