FLORIANÓPOLIS — Perfis estrangeiros publicaram conteúdos pagos sobre as chances de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição brasileira, com base em cotações da plataforma Polymarket. As ações envolveram o Visegrád24, a UHN Plus e o empresário espanhol Javier Negre, em uma rede que também se conecta ao marqueteiro argentino Fernando Cerimedo e ao ex-chefe de campanha de Donald Trump Brad Parscale.
Em 20 de setembro, o Visegrád24 publicou no X, para mais de 1 milhão de seguidores, que a chance de Flávio vencer a eleição estava subindo na Polymarket. A postagem trazia uma foto do senador ao lado do presidente argentino Javier Milei e recebeu a identificação de parceria paga, posteriormente apagada. O perfil escreveu: “Se ele vencer, toda a América do Sul, exceto a Venezuela e o Uruguai, será governada por conservadores”.
A mesma conta havia feito outra publicação paga em 30 de abril, afirmando que Flávio tinha ultrapassado Lula nas cotações, por 43% contra 38%. Antes disso, em fevereiro, o Visegrád24 entrevistou o senador. Em uma das respostas, Flávio disse que o Brasil tinha “um presidente que apoia terroristas”.
A rede de conexões
O Visegrád24 é mantido pela Intermarium Foundation, entidade americana sem fins lucrativos. O perfil também lançou uma edição em espanhol em parceria com veículos ligados a Javier Negre, que se apresenta como dono dessa versão.
Negre é vice-presidente da UHN Plus Media Network, empresa registrada na Flórida em novembro de 2025. A companhia se apresenta no X como ligada à Polymarket e publicou ao menos nove posts relacionando Flávio às cotações da plataforma. Uma dessas publicações, de 14 de abril, foi identificada como parceria paga.
A UHN afirma que Negre se tornou coproprietário após um investimento estratégico. Em outubro de 2025, a empresa disse que sua aliança com os veículos do empresário incluía a edição em espanhol do Visegrád24, a EDATV e a Informa Radio. Essa apresentação não comprova que todas as estruturas tenham sociedade ou caixa comum.
A Polymarket é uma plataforma de mercados de previsão. Os usuários negociam contratos sobre possíveis resultados de eleições, esportes e outros acontecimentos. Uma cotação de 58% para Flávio não representa a intenção de voto de 58% dos brasileiros, mas o preço alcançado pelos contratos naquele mercado.
O acesso à plataforma foi bloqueado no Brasil em abril porque a empresa não tinha autorização para operar no país. Desde junho de 2025, a Polymarket é parceira oficial de mercados de previsão do X. Em agosto de 2025, recebeu investimento do fundo 1789 Capital, do qual Donald Trump Jr. é sócio. Ele também passou a integrar o conselho consultivo da empresa.
Cerimedo e a tecnologia eleitoral
Fernando Cerimedo, marqueteiro argentino, aparece em outra ponta da rede. Ele foi sócio de Javier Negre no La Derecha Diario, coordenou a comunicação digital da campanha de Javier Milei e anunciou que representaria na América Latina as tecnologias da Campaign Nucleus e da EyesOver, empresas ligadas a Brad Parscale.
Em fevereiro, durante uma gala realizada no clube de Donald Trump na Flórida, Eduardo Bolsonaro apresentou Cerimedo como consultor político do ano. Na ocasião, afirmou que venceria a eleição de outubro com Flávio e retiraria Alexandre de Moraes da Suprema Corte. Cerimedo agradeceu a Parscale pela tecnologia utilizada em seu trabalho.
Cerimedo ficou conhecido no Brasil em novembro de 2022, quando divulgou alegações sem provas de fraude na eleição presidencial. A Polícia Federal o indiciou em 2024 no núcleo de desinformação da investigação sobre a tentativa de golpe, mas a Procuradoria-Geral da República não o incluiu posteriormente na denúncia.
Em 18 de agosto, Cerimedo foi detido na Bolívia e teve a prisão preventiva decretada. O Ministério Público boliviano o acusa de ser o mandante de uma tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, Nadia Beller. A defesa nega as acusações.
Relações ainda não comprovam operação única
Os registros e publicações disponíveis mostram contatos entre o Visegrád24, empresas de Javier Negre, a Polymarket e estruturas ligadas a Cerimedo e Parscale. Eles não demonstram, porém, que mídia, plataforma de apostas e tecnologia eleitoral façam parte de uma única operação coordenada para beneficiar Flávio Bolsonaro.
Também não foi localizado contrato entre essa rede e a candidatura. Permanecem sem resposta perguntas sobre quem financiou especificamente os posts, quem escolheu Flávio como tema e se houve intermediários ou ligação com fornecedores da campanha.
A campanha de Flávio afirmou anteriormente que não tinha conhecimento dos anúncios e negou relação formal com Cerimedo. O argentino também negou vínculo com a campanha e atribuiu a relação entre a UHN Plus, o Visegrád24 e a Polymarket a Javier Negre.
A legislação eleitoral permite propaganda paga na internet apenas nas hipóteses previstas em lei. As regras do Tribunal Superior Eleitoral em vigor em 2026 proíbem conceder vantagem econômica a pessoas físicas ou jurídicas para publicações político-eleitorais em perfis, páginas ou canais próprios. O X informou ao tribunal que manteria proibidos no Brasil anúncios políticos e de campanha.
A rede ligada a Negre também publicou uma informação falsa sobre imigrantes marroquinos em Santa Catarina. Em 25 de agosto, o La Derecha Diario afirmou que Lula estaria provocando uma onda migratória no estado. O caso real envolvia 50 marroquinos atendidos ao longo de três meses por uma entidade católica em Florianópolis. As imagens usadas na publicação eram de Ceuta, no norte da África.



