CAMPO GRANDE — Os temporais que atingiram a cidade nos últimos dias provocaram quedas de árvores e galhos, bloqueios de ruas, danos à rede elétrica e imóveis atingidos. Diante dos estragos, a Prefeitura de Campo Grande decretou situação de emergência.
Desde quinta-feira (10), foram registradas 450 ocorrências relacionadas às chuvas. Desse total, 423 envolveram árvores ou galhos caídos. A região central concentrou mais de 120 chamados.
A lanchonete da família de Anny Gabrielly, no bairro Mata do Jacinto, foi atingida pelo desabamento do forro e pela queda de uma árvore. Funcionários deixaram o local antes que a árvore atingisse a estrutura, mas equipamentos, alimentos e parte do imóvel foram danificados. A família estima prejuízo superior a R$ 30 mil e perdeu o principal espaço de trabalho e fonte de renda do grupo.
Chuva, vento e condições das árvores
O Corpo de Bombeiros registrou 281 chamados relacionados a risco ou queda de árvores entre 10 e 14 de setembro. A Energisa informou que 257 árvores precisaram ser retiradas da rede elétrica durante o último temporal. Algumas famílias ficaram mais de 48 horas sem energia.
O volume de ocorrências ocorreu durante um período de chuva acima do normal para setembro. Segundo o Inmet, Campo Grande acumulou mais de 102 milímetros desde 10 de setembro, quase 40% acima da média histórica de todo o mês.
O professor e botânico Geraldo Damasceno, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), explica que até uma árvore saudável pode cair quando está isolada e diretamente exposta a ventos fortes. “um vento forte pode derrubar uma árvore grande que esteja saudável”, afirmou.
Além da intensidade do temporal, a resistência das árvores pode ser afetada por doenças, fungos, cupins, podas inadequadas, cortes de raízes e falta de espaço para o desenvolvimento subterrâneo. A espécie escolhida e a forma como a árvore é inserida no ambiente urbano também influenciam o risco.
Damasceno cita o guapuruvu como uma espécie de crescimento rápido e grande porte, mas com madeira mais frágil. Árvores altas e expostas a ventos fortes podem oferecer maior risco. Por isso, a escolha precisa considerar o local de plantio e o tamanho que a árvore alcançará.
Arborização e planejamento urbano
Árvores plantadas em calçadas frequentemente encontram pouco espaço para formar as raízes. Estruturas instaladas para proteger o piso ou cortes feitos para conter raízes que levantam a calçada podem comprometer a sustentação da planta.
O urbanista Julio Botega, doutor em Arquitetura e Urbanismo, afirma que a arborização deve ser planejada junto com calçadas, ruas, postes, fiação elétrica e sistemas de drenagem. Para ele, é necessário considerar o espaço disponível e o crescimento da árvore ao longo dos anos.
Em Campo Grande, o plantio de espécies frutíferas em calçadas é proibido pela Lei Complementar nº 184/2011. De acordo com a Semades, espécies como a seriguela são recomendadas para quintais, praças e parques, desde que sejam respeitadas as distâncias em relação aos equipamentos urbanos.
A secretaria informou que, em janeiro de 2026, a cidade tinha cerca de 175 mil árvores no sistema viário, sem contar praças e parques. Também informou que não existe um programa específico para monitoramento das espécies.
Autorização e resposta à emergência
A Semades orienta que podas ou remoções, em áreas públicas ou particulares, dependem de autorização prévia da prefeitura. Depois do pedido, um técnico da Gerência de Arborização realiza uma vistoria e indica o manejo adequado. O serviço é gratuito.
Com o reconhecimento da emergência, órgãos do governo de Mato Grosso do Sul poderão atuar na resposta ao temporal, na recuperação das áreas afetadas e na reconstrução. A coordenação ficará sob responsabilidade da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil (CEPDEC-MS).
O decreto prevê a convocação de voluntários, campanhas para arrecadação de recursos e, em situações de risco iminente, a entrada de agentes da Defesa Civil em imóveis para prestar socorro ou determinar evacuações. Também permite contratar serviços e comprar materiais sem licitação quando essas medidas forem necessárias para enfrentar a emergência.
Especialistas recomendam escolher espécies adequadas ao espaço, acompanhar o crescimento e a saúde das árvores, fazer podas corretas, preservar as raízes e integrar o plantio ao planejamento urbano e à infraestrutura.
Em caso de risco à vida ou de danos a imóveis e veículos, o Corpo de Bombeiros deve ser acionado pelo 193. Árvores que obstruem ruas podem ser comunicadas à Defesa Civil pelo 199. Quando houver contato com a rede elétrica, a orientação é não se aproximar e chamar a Energisa pelo 0800 722 7272. A Guarda Civil Metropolitana atende pelo 153, e o Fala Campo Grande, pelo 156.



