FLORIANÓPOLIS — O Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (IDEAS), organização social fundada em 2016 e sediada no Estreito, em Florianópolis, administra 22 unidades de saúde em cinco estados. A instituição é alvo de denúncias de mães por mortes e sequelas de crianças atendidas no Hospital Materno Infantil Santa Catarina, em Criciúma.
Na Justiça de Santa Catarina, há mais de 10 ações por suspeita de erro médico envolvendo o instituto. O IDEAS também já foi investigado pela Polícia Federal por suspeita de desvio de recursos públicos.
Contratos e investigações
Conforme as informações divulgadas pelo próprio IDEAS, a organização administra unidades em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. No Instagram, também aparecem convênios no Amazonas, Pará, Ceará e Mato Grosso.
No Rio de Janeiro, o instituto mantém contratos em 11 unidades. O Ministério Público move uma ação civil pública contra a organização por suposto benefício indevido em contratos emergenciais que somam R$ 184 milhões em Nova Iguaçu.
O IDEAS assumiu a administração do Hospital Materno Infantil Santa Catarina em 2018, após firmar contrato com o Governo de Santa Catarina no valor de R$ 196 milhões. A Controladoria-Geral da União e o Tribunal de Contas do Estado identificaram indícios de irregularidades nas contratações e desvios.
As investigações apontaram que sócios do instituto também eram donos de empresas de prestação de serviços contratadas pelo próprio IDEAS e pagas com recursos públicos. O caso foi investigado pela Polícia Federal, que realizou uma operação em Santa Catarina e no Paraná.
Mesmo após a investigação e os indícios de irregularidades, o contrato foi renovado pelo Governo de Santa Catarina até 2028, por cerca de R$ 364 milhões. O governo informou que a renovação buscou evitar a interrupção dos serviços e que os contratos podem ser rompidos a qualquer momento. Também afirmou que o IDEAS foi autuado por falhas na prestação de contas e que abriu processo administrativo após a operação da Polícia Federal.
Denúncias de famílias
Entre os casos relatados está o de Samuel, que tinha 10 meses quando foi levado ao hospital com febre. Segundo a mãe, Vanusa Biff, o bebê apresentava assaduras severas e ferimentos nas mãos e nos pés. Ele permaneceu 58 dias na UTI e morreu em julho de 2023, com dificuldades para respirar e comer.
Jordana tinha 2 anos e 7 meses quando chegou à unidade com febre e vômito. Após receber o diagnóstico de virose, voltou para casa. Com a piora do quadro, retornou ao hospital. A mãe, Daiane Rodrigues Dias, afirmou que a filha teve uma complicação nos rins e precisava de hemodiálise com urgência, mas morreu sem realizar o procedimento.
Outro caso é o de Dominic. A criança chegou com febre, ainda responsiva, brincando, sorrindo e comendo, mas deixou o hospital com sequelas. De acordo com a mãe, Jéssica Bruna Nunes Inês, ele perdeu a visão, passou a se alimentar por sonda e não tem movimentos no corpo.
Adrielly, de 13 anos, foi atendida inicialmente com sintomas de gripe e depois voltou ao hospital por causa de dores fortes no joelho. A mãe, Andreia Cardoso, relatou que a adolescente recebeu diagnóstico de fratura e teve a perna imobilizada. Mais tarde, sofreu uma parada cardíaca e morreu por uma infecção causada por bactéria. Posteriormente, foi constatado que não havia fratura.
Posicionamentos
O diretor clínico do hospital, Christian de Escobar Prado, negou as acusações de erro médico e negligência. “Não refletem falhas sistêmicas, negligências ou mesmo erro médico”, afirmou. O IDEAS também declarou que o hospital apresenta índices qualitativos acima da média nacional e excelência nos serviços prestados.
A advogada Milene Lacerda, que representa as famílias, afirmou que o instituto é responsável pelo que ocorre no espaço físico da unidade. Sidney Tavares Júnior, diretor-geral de Controle Externo do TCE-SC, disse que relatórios de prestação de contas já indicavam possíveis problemas e que o tribunal identificou uma relação oculta entre os sócios e as empresas contratadas.



