RIO DE JANEIRO — Uma cadeirinha de bebê, roupas infantis, olhos de cera e uniformes de cursinho estão entre os objetos guardados na chamada Sala dos Milagres da Paróquia de São Cosme e São Damião, no Andaraí, na Zona Norte do Rio. Os itens são ex-votos deixados por devotos em agradecimento por graças atribuídas aos santos.
A igreja será elevada a santuário em 2027, conforme anúncio feito pelo cardeal Orani João Tempesta durante uma missa na paróquia. O local será o primeiro santuário dedicado a São Cosme e São Damião no Brasil.
Relatos e objetos de devoção
Entre os registros está a história de uma mãe que dirigia pela Avenida Brasil com o filho bebê em uma cadeirinha no banco traseiro. Após uma colisão, o assento e a criança foram parar às margens da rodovia. O menino não se feriu, e a mãe levou a cadeirinha à igreja como agradecimento.
O espaço também guarda um livro com relatos de devotos. Uma mulher contou que o filho, com 4 anos, teve um problema de visão curado e não precisou passar por cirurgia. Como forma de agradecimento, ela deixou uma vela de 80 centímetros e um olho de cera.
Há ainda uma roupa infantil nas cores verde, vermelha e branca, usada por um menino que sobreviveu a uma cirurgia de alto risco. Também foram levados ao local veículos de brinquedo, relacionados a sobreviventes de acidentes de trânsito, e uniformes de cursinho de pessoas aprovadas no vestibular de Medicina.
Maria Torres Barbosa, de 77 anos, ajuda voluntariamente a cuidar da sala desde 2025. Devota desde que se mudou para o Andaraí, em 1980, ela atribui aos santos sua recuperação após uma queda que provocou uma fratura na bacia. “Em um mês, voltei a andar, graças à intercessão de São Cosme e São Damião”, afirmou.
História dos santos e celebrações
Cosme e Damião foram irmãos gêmeos, médicos e ofereceram atendimento gratuito no século III, na região que hoje abriga países do ocidente da Ásia. Segundo a tradição, foram perseguidos por Dioclesiano, da Síria, depois de se recusarem a negar a fé em Jesus Cristo. No século VI, foram reconhecidos como santos pelo Papa Félix IV.
A celebração ocorre em 27 de setembro nas religiões de matriz afro-brasileira. A Igreja Católica alterou a data para 26 de setembro em 1969, porque São Vicente de Paulo também é lembrado em 27 de setembro.
Na paróquia, o calendário de festejos começou em 13 de setembro. A programação inclui distribuição de doces, missas, almoço, queima de fogos e procissão. No domingo, as atividades começam às 5h30; a procissão sai às 18h, e a última missa está marcada para 19h30.
O pároco Rodrigo Brum relaciona a distribuição de doces à cultura do Rio de Janeiro e à convivência entre o catolicismo e as religiões de matrizes africanas. A tradição também se conecta à devoção às crianças e aos ritos populares associados aos santos.


