MANAUS — O manejo econômico de jacarés na Amazônia deve ser estruturado como uma cadeia industrial de base comunitária e não como resposta à suposta competição entre os animais e os pescadores. A avaliação é do professor Ronis Da Silveira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), especialista em crocodilianos.
O pesquisador afirma que não há respaldo científico para relacionar a abundância de jacarés à redução dos peixes nos rios. Segundo ele, a presença desses animais pode indicar que o ambiente está em equilíbrio, já que eles ajudam a controlar espécies de peixes sem valor alimentar ou comercial.
Controle natural e conservação
A população de jacarés é regulada por fatores biológicos e climáticos. O controle começa ainda nos ovos, que podem ser predados por onças-pintadas, macacos-pregos, lagartos e jacurarus. Enchentes também podem atingir ninhos em áreas mais baixas. Filhotes são capturados por aves e peixes, incluindo o pirarucu, enquanto os adultos podem comer indivíduos menores da própria espécie.
Para Silveira, o manejo comercial pode contribuir para mudar a percepção das comunidades ribeirinhas, que muitas vezes consideram os jacarés indesejados. A atividade poderia gerar renda e emprego sazonal, ao mesmo tempo em que estimularia a proteção das áreas de reprodução e evitaria a substituição desses ambientes por agricultura ou criação de gado.
O professor defende que os moradores sejam beneficiados economicamente e não apenas fornecedores de matéria-prima. Atualmente, o manejo ocorre em Reservas de Desenvolvimento Sustentável e Reservas Extrativistas, por meio das comunidades que vivem nessas áreas. Fora delas, a atividade continua proibida.
Entraves para a atividade
A cadeia envolve captura, tratamento dos animais, aproveitamento da carne e da pele, processamento e comercialização. Silveira afirma que o poder público precisa criar infraestrutura e segurança para os investimentos privados, além de garantir planejamento, pesquisa aplicada e integração entre os envolvidos.
No Amazonas, os avanços foram concentrados principalmente na Reserva Mamirauá, no Médio Solimões. A atividade enfrenta dificuldades de logística, abastecimento de energia, processamento, exigências sanitárias e comercialização. O pesquisador também aponta que a pesquisa sobre o couro recebeu menos atenção, enquanto o caminho da carne esbarrou em custos e regras sanitárias.
O secretário de Estado de Pesca e Aquicultura do Amazonas, Alessandro Cohen Melo, atribui parte da lentidão à legislação ambiental. Ele afirma que o governo Wilson Lima retomou o processo e trabalha com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente.
Segundo Cohen, o comprador aceita animais de até dois metros, e o aproveitamento da carne exige cuidados sanitários. O secretário também citou antigas instalações de beneficiamento em Presidente Figueiredo e no Careiro da Várzea que não prosperaram.
Regras e experiências
O Amazonas é o único estado brasileiro com legislação específica para o abate de jacarés. O Instituto Mamirauá coordena, desde 2000, o manejo comunitário na Reserva Mamirauá. Em 2020, um abate experimental autorizado resultou no aproveitamento de 28 jacarés-açu e na produção de 600 quilos de carne, comercializada em Tefé, a 520 km da capital.
Em 2025, o Ipaam autorizou o funcionamento de um entreposto flutuante no setor Jarauá, na Reserva Mamirauá. De acordo com o órgão, a continuidade da atividade depende de estudos, autorização do Ibama, definição de cotas de captura, participação comunitária e cumprimento das regras da Resolução Cemaam nº 08/2011.
O Ipaam afirma que a atividade ainda ocorre em escala menor que o manejo sustentável do pirarucu porque exige logística, processamento, comercialização, organização comunitária e atendimento a padrões técnicos e sanitários.



