RIO DE JANEIRO — O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, é apontado pela Polícia Civil como um dos principais centros de atuação do Terceiro Comando Puro (TCP). Investigações indicam que a região concentra parte da estrutura logística da facção, recebe criminosos de outros estados e serve para articulação com grupos de diferentes partes do país.
Moradores relatam mudanças na rotina, com novas barricadas, vigilância armada, roubos de veículos e restrições à circulação entre comunidades. Os inquéritos apontam a presença de criminosos principalmente da Bahia e do Ceará. Segundo a polícia, o TCP mantém alianças com o Bonde do Maluco (BDM), da Bahia, e os Guardiões do Estado (GDE), do Ceará.
As investigações também citam a presença de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e reuniões entre membros de diferentes grupos criminosos. De acordo com a Polícia Civil, os encontros tratariam de acordos para fortalecer atividades ilícitas, facilitar deslocamentos e negociar armas e drogas. A polícia ainda afirma que práticas como cobrança de taxas e controle do fornecimento de internet passaram a ser reproduzidas em outros estados.
Baile e localização estratégica
O Baile da Disney é citado pelos investigadores como um ponto de encontro de criminosos de diferentes estados e facções. Segundo a polícia, o local também seria usado para a circulação e a venda de produtos provenientes de cargas roubadas, além de concentrar receitas obtidas com bebidas, alimentos e outros espaços controlados pela facção.
A proximidade com a Avenida Brasil, a Linha Vermelha e a Linha Amarela é considerada estratégica pela polícia. A localização facilitaria a entrada e a saída de criminosos, a redistribuição de cargas roubadas e o acesso a rotas de fuga.
Relatos de moradores
A dinâmica teria mudado após a morte de Thiago da Silva Folly, conhecido como TH da Maré. Ele foi morto durante uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da Polícia Militar, na madrugada de 13 de maio de 2025. Moradores afirmam que Michel de Souza Malveira, o Mangolê, e Bill da Maré passaram a exercer influência na região.
Na Baixa do Sapateiro, moradores relatam barricadas no Largo IV Centenário e na Rua Nova Jerusalém, na divisa com a Nova Holanda. A via fica próxima à Escola Municipal IV Centenário. Também há relatos de obstáculos e presença de criminosos na Avenida Guilherme Maxwell, que liga a região da Escola Bahia, na Passarela 7 da Avenida Brasil, à Linha Amarela e ao Museu da Maré.
Moradores dizem que homens armados com fuzis abordam carros e caminhões de carga e levam os veículos para dentro da comunidade. Vans que circulam pelo Parque União conseguiriam passar por alguns trechos, mas seriam proibidas de parar. Também são relatadas invasões de casas para retirada de pertences, que seriam trocados por entorpecentes.
Uma moradora da Baixa do Sapateiro, que não teve o nome divulgado por medo de represálias, afirmou: “Os bandidos proíbem que os moradores denunciem os roubos.”
Moradores ainda afirmam que áreas próximas a escolas e unidades de saúde são usadas como pontos de observação. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) CF Adib Jatene, na Avenida Bento Ribeiro Dantas, homens armados com fuzis estariam monitorando a movimentação. Em frente à unidade fica a Escola Municipal Professor Paulo Freire.



