O Tin Can, telefone infantil com conexão Wi-Fi, vem sendo vendido em lotes que se esgotam em poucos minutos nos Estados Unidos. O aparelho custa US$ 100, tem mensalidade de US$ 10 para chamadas a telefones comuns e ainda não está disponível no Brasil.
A proposta é recuperar a comunicação por voz sem oferecer os recursos associados aos smartphones. O dispositivo não tem tela, aplicativos, câmera, navegação na internet, chamadas de vídeo ou troca de mensagens. As crianças usam botões físicos para ligar para contatos previamente autorizados pelos pais.
Uma rede de contatos sem telas
Em Livermore, na região da Baía de São Francisco, na Califórnia, Reagan Maher comprou um aparelho no final do ano passado para os três filhos, de 6, 8 e 10 anos. Depois de compartilhar o produto em um grupo de mães, ela percebeu que as crianças passaram a usá-lo para conversar e combinar encontros.
Maher afirma que ela e outros pais estavam cansados de organizar encontros, caronas e mensagens para administrar a vida social dos filhos. Ao mesmo tempo, queriam adiar o acesso das crianças aos celulares. “Queremos que eles consigam se comunicar”, diz. “Mas nenhum de nós quer dar celular para as crianças tão cedo.”
O aparelho permite programar períodos em que fica inativo e bloquear chamadas de spam. Também pode ser configurado para chamadas de emergência, caso os pais ativem essa função. A comunicação entre aparelhos Tin Can é gratuita, enquanto as ligações para telefones comuns dependem da assinatura mensal.
A preocupação com a segurança digital também aparece entre os compradores. Maher tem experiência na área de segurança nacional e é casada com um agente da lei. Ela afirma que os dois acompanham de perto os riscos de exploração de crianças no ambiente online.
Demanda e novos concorrentes
Desde o lançamento oficial, em abril de 2025, o Tin Can vendeu centenas de milhares de unidades nos Estados Unidos e no Canadá. As pré-vendas chegaram à Austrália, à Nova Zelândia e ao Reino Unido. Chet Kittleson, cofundador e CEO da empresa, diz que a equipe enfrenta dificuldades para atender aos pedidos.
Outros produtos semelhantes também chegaram ao mercado. O Ooma MyPhone foi lançado em maio e passou a ser vendido nos Estados Unidos por redes como Walmart, Costco e Amazon. A Pinwheel, fabricante de relógios inteligentes e celulares para crianças e adolescentes, começou a entregar dois modelos do Pinwheel Home.
No Brasil, ainda não há marcas de telefones residenciais desenvolvidos especificamente para crianças. A linha fixa tradicional, por sua vez, perdeu espaço nos lares americanos: mais de 90% dos adultos tinham telefone fixo em casa em 2004, proporção que caiu para cerca de 20% em 2024, segundo o Centro Nacional de Estatísticas de Saúde.
Pais buscam adiar o smartphone
Dessa Brennan, moradora do Colorado, encomendou dois aparelhos para o filho de 8 anos, um para cada residência dos pais. Ela queria manter contato com o menino quando ele estivesse na casa do ex-marido sem entregar a ele um smartphone. Brennan estava na fila do lote 7, liberado em julho, e dizia não querer oferecer ao filho “acesso prematuro a uma tela”.
A procura pelo Tin Can ocorre em meio a preocupações com o tempo de tela, as redes sociais e o uso precoce de celulares. O livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, estimulou debates entre pais sobre esses temas e ajudou a impulsionar o compromisso Wait Until 8th, pelo qual famílias prometem adiar o smartphone até o fim do ensino fundamental II ou o início do ensino médio.
Catherine Price, autora de How To Break Up With Your Phone e coautora de The Amazing Generation, comprou um aparelho para a filha de 11 anos. Para ela, o telefone fixo permite que a menina converse com mais autonomia sem os recursos presentes nas redes sociais.
Hanith Danino, assistente social clínica de Nova Jersey, comprou o dispositivo para a filha de 8 anos. Durante o inverno, a menina ligava para as amigas para combinar brincadeiras. A filha mais velha, de 11 anos, usa um Apple Watch, mas as duas correm para atender quando o telefone toca.
Maher afirma que os dois filhos mais velhos fizeram 102 ligações em maio, conforme os dados do aplicativo do Tin Can. O menino de 10 anos telefona para colegas para conversar ou convidá-los a ir ao parque, andar de bicicleta ou jogar Fortnite.
Pesquisas citadas no debate sobre tecnologia indicam que 65% das meninas de 5 a 13 anos que usam assistentes de voz com inteligência artificial consideram a tecnologia uma amiga. Um levantamento de 2025 apontou ainda que 16% dos adolescentes usam robôs de conversa para bate-papo informal e 12% recorrem à IA em busca de conselhos e apoio emocional.
Entre os pais de crianças com menos de 13 anos, a tentativa de adiar o smartphone acompanha o esforço para controlar o tempo de tela. Uma pesquisa de 2024 indicou que 95% dos jovens americanos têm acesso a um smartphone. O mesmo levantamento mostrou que 86% dos pais consideram o controle do tempo de tela uma prioridade em casa.



