A primavera deve ter chuva acima da média em Santa Catarina sob influência de um El Niño classificado como muito forte. A previsão foi apresentada nesta terça-feira (28) pelo Fórum Climático, que reúne meteorologistas de diferentes instituições, entre elas a Defesa Civil e a Epagri/Ciram.
O grupo se reúne mensalmente para avaliar o comportamento esperado do clima no trimestre. Na reunião, os dois órgãos passaram a tratar o fenômeno como de intensidade muito forte. Os modelos indicam precipitação acima da média principalmente no próximo bimestre.
Previsão para a primavera
Outubro, novembro e dezembro devem registrar chuva acima da média e temperaturas dentro do padrão esperado. A condição aumenta a possibilidade de temporais com vendaval e granizo, além de ocorrências associadas aos altos volumes de chuva, como enxurradas, inundações e deslizamentos, segundo a Defesa Civil.
Com a predominância de tempo fechado, não são esperados veranicos fortes. Também existe a possibilidade de períodos curtos de “inverno fora de época” na Serra. Em outubro e novembro, a temperatura deve ficar dentro da média climatológica, com pouca variação entre os dias e tardes sem calor intenso.
A partir de dezembro, a chuva deve continuar acima da média. Os temporais de verão, que ocorrem de forma mais isolada, tendem a se tornar mais frequentes, enquanto as temperaturas sobem em relação aos meses anteriores.
Até meados de outubro, o El Niño deve favorecer a formação de sistemas que provocam chuva. Depois, a Oscilação Madden-Julian deve entrar em uma fase de inibição da precipitação e deixar de impulsionar os efeitos do fenômeno. Isso não significa que a chuva vai parar nas últimas semanas de outubro. Outros fatores e oscilações ainda apontam para a formação de chuva, especialmente nas próximas duas semanas.
Temperatura do oceano
Dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (Nooa) mostram que, desde 1950, a temperatura da região do Oceano Pacífico monitorada para o El Niño nunca havia alcançado o patamar atual. A anomalia já passa de 3ºC acima da média e pode chegar a 3,5ºC entre outubro e novembro. Pelas projeções, o fenômeno deve permanecer ao menos até o final do outono de 2027.
A média da anomalia é de 2,2°C, acima do limite de 2 °C usado para caracterizar um evento de intensidade muito forte. Embora “super El Niño” não seja uma classificação oficial, o meteorologista da Defesa Civil de Santa Catarina, Caio Guerra, explica que o termo é usado quando o aquecimento ultrapassa 2°C acima da média.
Desde 1950, foram registrados 25 episódios de El Niño, dos quais cinco tiveram marcas superiores a 2ºC, conforme os dados da Noaa. O intervalo entre eventos de forte intensidade também diminuiu: de mais de 10 anos entre a metade do século passado e meados do atual para oito anos na história recente.
Efeitos esperados em Santa Catarina
O El Niño historicamente aumenta as chuvas na primavera catarinense, mas cada episódio apresenta características próprias. Um estudo da cientista Alice Grimm aponta novembro como o mês em que os efeitos do fenômeno costumam ser mais intensos no estado.
Em novembro sob El Niño, as chances de eventos extremos são 6,3 vezes maiores, contra 1,2 em períodos de La Niña. Os extremos de chuva podem se intensificar, e os dias chuvosos podem durar mais que o normal.
A formação de um grande desastre, porém, depende da combinação do El Niño com outras oscilações climáticas. Essa sobreposição de efeitos precisa ser acompanhada continuamente e só pode ser prevista com menor antecedência. No Rio Grande do Sul, em 2024, a Oscilação Madden-Julian favoreceu a atuação do El Niño.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) define o El Niño como o aumento da temperatura da superfície da água em uma área do Oceano Pacífico próxima ao Peru. O aquecimento favorece a evaporação, a elevação do ar quente e a formação de nuvens carregadas. Já o resfriamento dessas águas caracteriza a La Niña, associada a volumes menores de chuva em Santa Catarina.



