RIO DE JANEIRO — O estado do Rio de Janeiro perdeu 165.360 moradores para outras unidades da federação entre 2017 e 2022, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a maior redução absoluta do país, sem considerar estrangeiros e pessoas sem residência especificada ou declarada.
São Paulo recebeu a maior parcela dos moradores que deixaram o Rio: 71 mil pessoas. O fluxo inclui trabalhadores e estudantes, como Igor Pereira, de 25 anos, e Cássio Luan Rodrigues, de 27, que se mudaram para o estado paulista. Igor concluiu Economia na UFRJ e foi para São Paulo no fim do ano passado, após acompanhar a mudança da liderança da empresa onde trabalhava. Cássio deixou o curso de Empreendedorismo e Gestão na Universidade Estácio de Sá antes da conclusão e passou a atuar em marketing.
O movimento também ocorreu no sentido contrário. A paulistana Amanda Gonçalves, de 28 anos, mudou-se para o Rio em abril de 2022 para cursar Direito na UFRJ. Depois da graduação, passou a trabalhar em um escritório e iniciou uma pós-graduação em Direito Tributário na Uerj. A mãe dela, Almerinda, aposentada e viúva, também se mudou para o Rio.
Estrangeiros e destinos dos migrantes
A população estrangeira residente no Rio diminuiu de 96.821 para 80.292 entre 2011 e 2022, uma redução de 16.529 pessoas. No Brasil, o total subiu de 592 mil para mais de 1 milhão no mesmo intervalo. Entre os estrangeiros que vivem no estado, mais de 30 mil são portugueses. Argentinos somam 5.522 e italianos, 3.465.
O demógrafo Marcio Misuo, do IBGE, relaciona parte da redução aos fluxos recentes de imigração, que não tiveram o Rio entre os principais destinos, especialmente no caso de pessoas vindas da América Latina. Ele também afirma que a presença de imigrantes europeus, cuja chegada ocorreu ao longo de várias décadas, contribui para um perfil mais envelhecido e para o efeito da mortalidade sobre esse grupo.
No período entre 2005 e 2010, o Rio havia registrado saldo migratório positivo de 23.104 pessoas. Para Misuo, fatores econômicos podem estar associados ao resultado mais recente. Ele também menciona o contexto da segurança e o custo de vida como elementos que podem influenciar as decisões de mudança.
Relatos de quem escolheu ficar
Bárbara, que não teve a idade informada, afirma ter criado vínculos no Rio e pretende permanecer no estado. A mãe Ângela, o irmão, a cunhada e a filha do casal também se mudaram para a cidade há cerca de dois anos. Gabriel Xavier, de 20 anos, saiu de Manaus, onde foi criado em Parintins, no Amazonas, para cursar Direito na UFRJ. Ele está no Rio desde 2024 e relata dificuldades para se adaptar às temperaturas e às características da violência local.
Para o professor Vitor de Pieri, do Departamento de Geografia Humana da Uerj, o resultado faz parte de uma mudança mais ampla na geografia econômica brasileira. Ele cita a crise fiscal estadual, a redução dos investimentos, dificuldades em segmentos da cadeia de petróleo e gás, a retração da construção civil e os efeitos da crise econômica iniciada em meados da década passada.
Pieri também aponta impactos da Operação Lava Jato sobre empresas e cadeias produtivas ligadas aos setores de petróleo, engenharia e construção. Na avaliação dele, São Paulo combina proximidade geográfica com um mercado de trabalho maior e mais diversificado. O professor afirma que o desafio do Rio é recuperar a capacidade de atrair e reter moradores, sobretudo jovens e trabalhadores qualificados, por meio da geração de emprego, renda e perspectivas de futuro.



