CAMPO GRANDE — Pesquisadores, produtores e representantes da comunidade discutiram o uso seguro de plantas medicinais durante o 23º Workshop de Plantas Medicinais. O encontro abordou a identificação correta das espécies, possíveis efeitos adversos, pesquisas para produção de medicamentos fitoterápicos e o cultivo como alternativa de renda para agricultores familiares.
A etnobotânica Arlene Rocha destacou que espécies parecidas podem ter propriedades e características diferentes. Para ela, a associação entre conhecimento popular e informações científicas é necessária para orientar o uso das plantas.
Especialistas alertam que plantas medicinais podem interagir com medicamentos, alimentos e outras plantas. Também podem causar efeitos adversos quando utilizadas sem orientação. A professora Silvia Cristina Heredia Vieira recomenda atenção à espécie, à quantidade e ao horário de uso. “A população não pode utilizar na forma crua”, afirmou ao tratar do suco de inhame.
Exemplos citados no encontro
Segundo Silvia, o inhame usado cru em sucos pode conter substâncias que parecem agulhas. O cozimento quebra essas substâncias, por isso o alimento não deve ser consumido cru na preparação mencionada durante o encontro.
A especialista também falou sobre a babosa. De acordo com ela, a planta tem antracnonas, substâncias que podem fazer mal quando ingeridas. Nesse caso, o uso indicado por ela é tópico, como cicatrizante.
O produtor Jorge Amaral, que trabalha há 30 anos com ervas medicinais e atua na região de Dourados, também ressaltou a necessidade de cuidado. Ele relatou que aprendeu o ofício com o pai e citou o uso de sucupira no vinho para aliviar dores na perna. Jorge afirmou que a dosagem e a mistura fazem diferença entre diferentes usos de uma planta.
Os especialistas recomendam procurar profissionais de saúde antes de utilizar plantas medicinais para fins terapêuticos.
Farmácia Viva e agricultura familiar
O Ministério da Saúde e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul participam de um projeto para implantar a Farmácia Viva em Mato Grosso do Sul. Vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), a iniciativa reúne cultivo, coleta e produção de produtos feitos a partir de plantas medicinais.
O encontro também tratou da necessidade de ampliar o cultivo para garantir matéria-prima às pesquisas e aos produtos de saúde. Pesquisadores afirmam que agricultores familiares podem contribuir com esse fornecimento e gerar renda por meio da produção das espécies.
Para a médica Patrícia Corrêa Dias, o conhecimento transmitido entre gerações pode abrir caminho para estudos sobre propriedades e substâncias presentes nas plantas. Ela afirmou que análises químicas, farmacológicas e toxicológicas são necessárias para avaliar a segurança e a eficácia desses compostos.
Pesquisas sobre saciedade
Outra discussão envolveu substâncias de plantas medicinais que podem atuar na saciedade. A médica explicou que algumas delas interagem com alvos farmacológicos associados aos hormônios GLP-1 e GIP, relacionados à regulação da saciedade.
Segundo Patrícia, há substâncias naturais administráveis por via oral que podem estimular o intestino a produzir esses hormônios. Ela afirmou que, em casos de menor excesso de peso, fitoterápicos podem ser uma alternativa de ação mais amena.



