SÃO PAULO — A Banda Odara levou uma produção criada por estudantes da EMEF Professor Antonio Prudente a atividades da rede municipal, festivais e encontros culturais. O grupo também participou do Festival Literário e Artístico Folhas de Baobá e do Festival Estudantil de Música Instrumental e Corais da Cidade de São Paulo (FEMIC). Nas edições de 2023 e 2024 do FEMIC, conquistou premiações e recebeu o segundo lugar no Prêmio Heitor Villa-Lobos 2024.
A banda é resultado do projeto Arranjos Periféricos: letramento racial, afeto e resistência, desenvolvido na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo. A iniciativa usa a música para trabalhar identidade, território, ancestralidade, cultura afro-brasileira e participação dos estudantes nas decisões sobre as produções realizadas na escola.
Criação a partir das vivências
Desenvolvido pelos professores Elaine Regina Chagas Santos, José Gabriel Diaz Perez Poeta e Helenice Moreira Dias, o projeto articula educação musical, História, Língua Portuguesa, Matemática, tecnologia e artes visuais. A proposta parte dos conhecimentos que os estudantes trazem de suas famílias, comunidades e territórios.
As atividades começaram com rodas de conversa sobre identidade, racismo, ancestralidade, território e situações vividas pelos jovens dentro e fora da escola. Esses temas orientaram a escolha dos assuntos das músicas, a elaboração das letras e a construção dos arranjos.
Criado em 2024, o projeto começou com 19 alunos e já envolveu cerca de 50 estudantes. O percurso inclui criação de letras, experimentação de ritmos, ensaios, gravações e apresentações. A iniciativa também está integrada ao Coletivo Pretos no Topo e ao Projeto Da Ponte Pra Cá.
A literatura negra do acervo escolar ampliou as discussões sobre representatividade e pertencimento. Entre as obras trabalhadas estão “O mundo no black power de Tayó” e “O black power de Akin”, de Kiusam de Oliveira. No repertório musical, os estudantes conheceram artistas como Racionais MC’s, Sabotage, RZO, Cássia Eller e Gabriel O Pensador.
A canção “Cabeça de Nego”, de Sabotage, foi utilizada para abordar a influência da cultura negra na sociedade brasileira e a presença de palavras de origem iorubá na linguagem cotidiana. O trabalho aproximou História, cultura e linguagem das composições produzidas pelos próprios estudantes.
Música como prática interdisciplinar
Nas aulas e encontros, os jovens estudaram ritmo, melodia, harmonia, compasso, notação musical, arranjos e produção sonora. Também tiveram contato com instrumentos de percussão, cordas, teclado, bateria e instrumentos de sopro. Não era necessário conhecimento musical prévio para participar.
A produção das letras envolvia leitura, interpretação, escrita e argumentação. Os estudantes escolhiam os temas, organizavam ideias e definiam mensagens que pudessem ser comunicadas por meio da música. A matemática aparecia na organização dos ritmos, na divisão dos tempos, na métrica e na estrutura dos compassos.
Os arranjos eram definidos de forma coletiva. O grupo testava combinações de instrumentos, avaliava possibilidades sonoras e negociava a participação de cada integrante. Assim, os ensaios trabalhavam, além da técnica, a escuta, a responsabilidade e a tomada de decisões em conjunto.
A proposta também incorporou murais, painéis, grafites e mensagens sobre identidade negra e valorização cultural. Com a participação da professora Helenice Moreira Dias, essas produções passaram a ocupar paredes e espaços de circulação da escola.
Da composição à gravação
O projeto envolve os estudantes em várias etapas da produção musical. Depois da escrita e da organização dos arranjos, eles participam da preparação dos instrumentos, da captação de vocais e instrumentos, da edição, da mixagem e da masterização.
As atividades incluem conhecimentos sobre amplificação, passagem de som, controle de volume, afinação, equalização e tratamento sonoro. Dessa forma, a tecnologia é apresentada como ferramenta de criação, comunicação e produção cultural, e não apenas como recurso de consumo.
A apresentação pública é tratada como parte do processo de aprendizagem. A Banda Odara participa de atividades na escola e de eventos externos, entre eles a Expo Favela, onde apresentou “Vida Loka, Parte II”, dos Racionais MC’s. Os estudantes atuam como autores e intérpretes de um repertório construído ao longo do projeto.
Participação e identidade
Segundo os professores, as aprendizagens envolveram dimensões musicais, artísticas, técnicas e sociais. Os estudantes desenvolveram conhecimentos sobre composição e produção sonora, além de leitura, escrita, argumentação, escuta e organização coletiva.
O projeto também acompanhou a trajetória de uma estudante negra que havia vivenciado situações de racismo em outras unidades e enfrentava dificuldades de participação no cotidiano escolar. Com o envolvimento nas atividades, ela passou a escrever poesias, participar de Slam, cantar e tocar instrumentos, tornando-se uma das integrantes mais atuantes da iniciativa.
A experiência relaciona o currículo às histórias e aos repertórios culturais dos jovens. Ao transformar memórias, relações raciais, experiências familiares e situações do território em produções artísticas, o Arranjos Periféricos amplia os espaços de expressão e participação dos estudantes na escola.



