SÃO SEBASTIÃO — A participação de Jorge em uma montagem teatral mudou sua relação com a leitura na Escola Municipal Professora Cynthia Cliquet Luciano. Aluno do 8º ano, ele tinha dificuldade para acompanhar “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry. A professora Shirlei Rodrigues Pelizzaro apresentou à turma “O Pequeno Príncipe Preto”, de Rodrigo França, e dividiu entre três estudantes o papel principal da adaptação para o teatro. Jorge aceitou, decorou o texto e passou a se oferecer para ler em voz alta.
A experiência resume um dos desafios da formação leitora: colocar livros ao alcance dos estudantes é indispensável, mas não suficiente. A escola também precisa criar condições para que eles encontrem obras relacionadas às próprias experiências, conheçam outras perspectivas e desenvolvam autonomia para escolher o que ler.
Mediação que considera os estudantes
Com 26 anos de atuação na educação pública, 16 deles na mesma escola, Shirlei trabalha com literatura, teatro, artes e território. Ao assumir uma turma vista pela comunidade escolar como difícil, procurou conhecer os interesses, as angústias e as formas de expressão dos jovens. Para ela, a escolha das obras precisa considerar quem vai lê-las.
Essa perspectiva aparece no projeto “Caminhos da Água”. Em turmas com média de 35 alunos, o percurso começou pela literatura caiçara e por autores locais. Depois, passou por obras indígenas, pela memória do território, pelo Rio Laranjal e pela produção de Cândido Portinari, até chegar a “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. O trabalho resultou em histórias em quadrinhos, cartas, mapas e diários.
A professora também utiliza a obra de Carolina Maria de Jesus em atividades como a montagem de “O sonho de Bitita”, realizada no contraturno escolar. O projeto levou os estudantes a festivais e rendeu a Shirlei a 3ª edição do Prêmio Professor Porvir na categoria educação antirracista.
Mulher negra, egressa da escola pública e formada em Letras (Português e Latim) pela USP (Universidade de São Paulo), Shirlei busca ampliar a representação nas aulas. Ao trabalhar Machado de Assis com alunos do 9º ano, apresenta o escritor como homem negro e abolicionista, além de textos menos conhecidos. “É importante que as crianças conheçam esse outro Machado”, afirma.
Livros, identidade e outras perspectivas
O professor, pesquisador e doutorando José Augusto Souza dos Santos relaciona sua trajetória leitora ao trabalho de professores alfabetizadores. Nascido no interior da Bahia, ele entrou na escola aos 8 anos e conta que, durante parte da vida, o livro parecia um item de luxo.
Sua pesquisa aborda a formação decolonial de professores. Na prática, isso envolve questionar por que determinadas vozes, autores e histórias foram tradicionalmente reconhecidos como legítimos e incluir os estudantes nas decisões sobre o acervo. Na Escola Municipal Maria Dias Trindade, em Paripiranga, José coordena o projeto “Crônicas do meu lugar”. A turma leu cronistas brasileiros, entre eles Luis Fernando Veríssimo e Fernando Sabino, e escreveu sobre a própria comunidade. Os textos deram origem a uma coletânea digital, um podcast e um livro impresso.
A diversidade também está presente na experiência de Jeferson Tenório, que trabalhou 18 anos como professor de língua portuguesa e literatura na rede de Porto Alegre. Autor de “O Avesso da Pele”, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário em 2021, e de “De Onde Eles Vêm”, lançado em 2024, ele considera que a escola tem funções intelectual e afetiva.
Jeferson acompanhou estudantes desde a antiga 5ª série até o fim do ensino médio e observou que o vínculo com os livros podia mudar ao longo dos anos. Para ele, a leitura não deve ser reduzida a uma tarefa feita apenas para obter nota. O professor pode apresentar elementos do texto e ajudar a iluminar aspectos que passaram despercebidos, mas não deve impor uma única interpretação.
Literatura como experiência
A literatura ocupa diferentes posições nos documentos educacionais. A LDB não detalha uma concepção de leitura literária. Os PCN de língua portuguesa, de 1998, deram maior atenção à especificidade do texto literário e à formação do leitor. No ensino médio, o tema perdeu espaço nos PCNEM e foi retomado pelas OCEM, em 2006.
Na BNCC, a literatura integra o campo artístico-literário. Neide Luzia de Rezende, professora da FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo), explica que o foco passou da especificidade do texto para a relação estabelecida pelo leitor, com destaque para fruição, experiência estética, implicação e leitor-fruidor.
Para Neide, nenhum currículo produz leitores automaticamente. A experiência literária precisa incluir tempo, conversa, possibilidade de escolha e contato com interpretações diferentes. Nem toda leitura precisa ser convertida imediatamente em exercício ou avaliação. “O direito à literatura só se realiza quando o estudante pode efetivamente ter uma experiência com ela”, afirma.
Condições para garantir o direito
A formação leitora não pode depender apenas da iniciativa individual de um professor ou de uma escola. Neide defende políticas públicas com bibliotecas, acervos de qualidade e diversificados, programas de acesso ao livro, formação docente e continuidade entre as gestões.
Jeferson também relata as dificuldades estruturais enfrentadas por professores que desenvolvem projetos de leitura. Para Shirlei, o trabalho exige que o docente amplie continuamente o próprio repertório e mantenha contato com exposições, arte e livros.
A leitura aparece, assim, como caminho para o reconhecimento de si e para o encontro com outras vidas. Ela pode aproximar os estudantes de suas comunidades, ampliar o repertório e favorecer autonomia, pertencimento e consciência crítica. Para Jeferson, formar leitores é oferecer condições para que cada pessoa escolha o que quer ler e compreenda a importância dos livros em sua vida.



