A inteligência artificial generativa já é utilizada por 53% dos gestores de escolas públicas brasileiras em atividades profissionais, segundo a TIC Educação 2025. O avanço ocorre junto à expansão das plataformas digitais e da conectividade, enquanto as redes de ensino buscam proteger informações de estudantes, professores e gestores.
Dados da pesquisa Privacidade e Proteção de Dados Pessoais 2025, realizada pelo Cetic.br, vinculado ao NIC.br, mostram que 29% dos usuários de internet com 16 anos ou mais que já usaram ferramentas de inteligência artificial recorrem a elas todos os dias ou quase todos os dias. Outros 33% fazem isso pelo menos uma vez por semana.
O uso dessas ferramentas envolve o envio de informações pessoais. Entre os usuários pesquisados, 54% disseram fornecer sentimentos e emoções, 52% compartilharam dados de saúde e 37% informaram dados como nome, endereço, data de nascimento ou CPF. Também foram citadas fotos próprias ou de conhecidos por 50% dos participantes. Ao mesmo tempo, 66% afirmaram estar preocupados ou muito preocupados com a utilização dessas informações pelas empresas responsáveis pelas tecnologias.
Presença digital nas escolas
A TIC Educação 2025 aponta que 92% das escolas públicas usam sistemas ou plataformas digitais de gestão governamentais. Plataformas de ensino e aprendizagem estão presentes em 79% das instituições, enquanto 71% mantêm perfil ou página em redes sociais. Sistemas de identificação por reconhecimento facial são utilizados por 6% das escolas públicas.
Entre os gestores que adotam inteligência artificial, 83% usam a tecnologia para criar imagens, apresentações e vídeos. A produção de convites, avisos e comunicados aparece em 82% dos casos, e 75% recorrem às ferramentas para organizar e planejar atividades pedagógicas e de gestão. Transcrição, resumo, revisão ou tradução de textos são mencionados por 69%.
O uso é menor em tarefas de análise e operação. A inteligência artificial é empregada por 52% desses gestores para analisar o desempenho dos alunos, as práticas pedagógicas ou o funcionamento da instituição. O percentual fica em 42% na organização de documentos e certidões, 26% no monitoramento de alimentação, transporte e limpeza e 21% no aprimoramento de sistemas de segurança.
“Grande parte [dos gestores] mencionou ter realizado atividades de comunicação, criação e preparação de conteúdos e apoio no planejamento de atividades de gestão”, explica Daniela Costa, coordenadora do Cetic.br.
Segurança e formação
Questões relacionadas à segurança de dados estão entre os motivos para não adotar dispositivos, plataformas ou outros recursos educacionais digitais para 25% dos gestores de escolas públicas. O risco de vazamento ou roubo de dados dos alunos é citado por 16%, enquanto 15% apontam a falta de clareza nos termos de uso sobre o tratamento das informações.
Em 2025, 54% das escolas públicas declararam ter um documento com diretrizes de segurança da informação ou privacidade. A proporção de instituições que promoveram debates ou palestras sobre privacidade e proteção de dados nos 12 meses anteriores à pesquisa passou de 34%, em 2023, para 38%, em 2025. Funcionários, professores, estudantes, pais e responsáveis participaram dessas atividades.
Outras dificuldades também afetam a digitalização. A qualidade dos computadores e do acesso à internet é apontada por 64% dos gestores. A falta de habilidades dos educadores e de outros profissionais aparece para 62%, e 42% mencionam a ausência de equipes de apoio.
Para Daniela Costa, as redes precisam desenvolver capacidade para avaliar os produtos e serviços adotados nas escolas. Ela também defende que essas tecnologias sejam desenvolvidas considerando os direitos de crianças, adolescentes e da comunidade escolar.
O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital, foi instituído pela Lei nº 15.211/2025 e está em vigor desde março de 2026. A norma estabelece regras para produtos e serviços digitais destinados a crianças e adolescentes ou provavelmente acessados por esse público, com medidas de privacidade, proteção de dados e segurança.
A integração de informações educacionais também faz parte do SNE, criado pela Lei Complementar nº 220/2025. O sistema prevê uma infraestrutura nacional para reunir dados da educação e determina que o compartilhamento siga regras de segurança e proteção aplicáveis às informações de estudantes, professores e gestores, conforme a LGPD.
Apoio para a escolha de tecnologias
O MEC mantém o MEC RED, repositório de recursos educacionais voltado a gestores, professores e redes de ensino. O ministério também publicou o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, elaborado no âmbito da Segape.
Essas iniciativas oferecem referências, mas não funcionam como um mecanismo de validação prévia das ferramentas digitais disponíveis para as escolas. Para Daniela Costa, ainda são necessárias orientações mais acessíveis para apoiar as decisões das redes e ampliar a participação da comunidade escolar.
A formação dos estudantes é outro aspecto do tema. Em 2025, 32% dos usuários de internet com 16 anos ou mais relataram tentativas de golpe com uso de seus dados pessoais, e 20% disseram ter sido vítimas. Entre os que passaram por essas situações, aplicativos de mensagens foram citados por 84%, ligações telefônicas por 79% e sites ou aplicativos falsos por 71%.
Os dados reforçam a importância de discutir, no ambiente educacional, quais informações são compartilhadas com plataformas, como elas podem ser utilizadas e quais cuidados devem orientar o uso de ferramentas digitais e de inteligência artificial.



