RIO DE JANEIRO — A Polícia Civil de Mato Grosso afirma que um projeto de assistência religiosa em presídios era usado por uma família para transmitir mensagens, levar celulares e movimentar recursos do Comando Vermelho. Rhavenna Barcelos de Almeida, os pais Orminda e Nivaldo de Almeida e outras pessoas foram alvo de investigações sobre vínculos com integrantes da facção.
Rhavenna foi presa sob suspeita de envolvimento com a organização criminosa. De acordo com os investigadores, ela mantinha um relacionamento com Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como Batman, apontado como um dos chefes do grupo em Mato Grosso.
Fuga e contatos no Rio
Batman cumpria pena na Penitenciária Central de Cuiabá, onde a família atuava, após ser condenado a 49 anos de prisão. Em setembro de 2024, ele passou ao regime semiaberto, rompeu a tornozeleira eletrônica três dias depois e fugiu para o Rio de Janeiro.
A polícia afirma que o traficante enviava a Rhavenna informações sobre o esconderijo no Complexo do Alemão, na Zona Norte, e sobre operações policiais. Os investigadores também apontam que os dois se encontravam com frequência na capital fluminense.
Mensagens obtidas com autorização judicial registraram conversas sobre uma ação policial no conjunto de favelas. Em outro momento, Batman informou que havia deixado o local e estava em outra favela. Registros reunidos no inquérito mostram o homem usando joias, acompanhado por pessoas armadas e em um Porsche conversível avaliado em R$ 600 mil. Rhavenna foi filmada no veículo.
A investigação também identificou encontros na Rocinha, na Zona Sul. Um vídeo de um churrasco mostra Batman na churrasqueira enquanto mulheres cantam um louvor. Um fuzil aparece nas imagens. Fotografias reunidas pela polícia mostram Rhavenna e os pais com armas e ao lado de traficantes armados.
O delegado Victor Hugo Caetano, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, afirmou que a proximidade da família com integrantes da cúpula da facção chamou a atenção das equipes.
Acesso a unidades prisionais
Rhavenna e os pais integravam o projeto Equipe Evangelismo Resgatando Vidas, autorizado pelo governo de Mato Grosso a prestar assistência religiosa em presídios. A polícia iniciou a apuração após receber uma denúncia sobre a ligação da família com uma organização criminosa.
Segundo o inquérito, a atividade era utilizada como justificativa para acessar as unidades, transportar celulares, repassar mensagens e ocultar valores. A Penitenciária Central de Cuiabá abriga mais de três mil presos, incluindo lideranças do Comando Vermelho.
Caetano afirmou que os investigados também emprestavam contas bancárias para esconder e dissimular recursos que, segundo a polícia, eram destinados à facção. No celular de Rhavenna, foram encontrados vídeos de criminosos atirando. Em um deles, Batman acompanha, por chamada de vídeo, o teste de um fuzil.
Nivaldo aparece em um registro mostrando uma pistola à filha e fazendo um gesto que a polícia identifica como símbolo da facção. Em outra conversa, Orminda menciona que buscaria uma arma para vender.
Outros vínculos investigados
A apuração aponta ainda uma relação entre Rhavenna e Renildo Silva Rios, preso há mais de duas décadas por homicídio, tráfico e organização criminosa. Ele é apontado como um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso.
De acordo com Caetano, Rhavenna e os pais também lavavam dinheiro para Renildo. A investigação afirma que o preso deu a ela uma pulseira de ouro e um carro. Em uma ocasião, ele acompanhou por videochamada uma surpresa que incluía uma viagem ao Nordeste e uma caixa em formato de coração com notas de R$ 100.
Rhavenna, Orminda e Renildo foram denunciados pelo Ministério Público por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Nivaldo morreu na semana passada em consequência de um câncer. Outras mulheres do grupo foram indiciadas por falso testemunho, sob a acusação de terem mentido sobre relações com traficantes.
As defesas de Rhavenna e Orminda negam as acusações. Rhavenna permaneceu em silêncio durante o interrogatório policial.
A Justiça de Mato Grosso proibiu a família e outras quatro pessoas de participar da assistência religiosa em presídios. A Secretaria de Justiça informou que reforçou a fiscalização contra o uso de celulares na Penitenciária Central de Cuiabá. O governo do Rio declarou que as forças de segurança atuam para identificar, localizar e prender criminosos de outros estados escondidos ou em atividade no território fluminense.




