RIO DE JANEIRO — O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) determinou a retomada da investigação sobre suspeitas de desvio de dinheiro público no gabinete do ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL). O procedimento envolve outras 25 pessoas e apura o possível uso de funcionários fantasmas, prática conhecida como rachadinha, na Câmara Municipal do Rio.
A decisão foi tomada pela Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ), que considerou prematuro o arquivamento anterior e apontou a necessidade de cumprir diligências consideradas essenciais. Em nota, o MPRJ informou que determinou, em 09/02, o envio dos autos à 4ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada do Núcleo Rio de Janeiro para a realização de medidas complementares.
A apuração havia sido arquivada pelo próprio Ministério Público em setembro de 2024. Na ocasião, sete funcionários do gabinete foram denunciados por peculato, crime relacionado ao desvio de dinheiro público. No início de 2025, o juiz Thales Nogueira Cavalcanti Venâncio Braga apontou omissões e contradições no procedimento e encaminhou o caso para avaliação da PGJ.
Pontos que serão investigados
Um dos focos será o pagamento do plano de saúde de Carlos Bolsonaro. Relatório analisado pela Procuradoria apontou que, durante um intervalo de nove anos de contratação, apenas um boleto teria sido pago pela conta bancária do então vereador. A PGJ quer que as operadoras informem os valores, a forma de pagamento e os responsáveis pelas quitações.
Também será aprofundada a compra de um apartamento em Copacabana, na Zona Sul do Rio, em 2009. Segundo o parecer, o imóvel foi declarado por R$ 70 mil, valor considerado muito abaixo do mercado naquele período.
Outro ponto envolve os acessos frequentes de Carlos Bolsonaro a um cofre em uma agência bancária. O documento registra que ele “realizou pelo menos um ou mais acessos por mês ao tal cofre”. A Procuradoria também recomendou ouvir os investigados sobre o padrão de saques feitos depois do recebimento dos salários.
A nova etapa deverá avaliar se houve devolução de parte da remuneração por funcionários e reunir elementos para uma eventual denúncia ou para um novo arquivamento. O parecer afirma que “o prosseguimento das investigações revela-se medida necessária à adequada elucidação dos fatos”.
Investigados e manifestações
A lista tem 26 pessoas, entre elas Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela chefiou o gabinete de Carlos Bolsonaro entre 2001 e 2008. Relatórios de inteligência financeira mencionados na investigação apontaram depósitos em dinheiro vivo de até R$ 340 mil na conta dela.
Jorge Luiz Fernandes, apontado na denúncia como responsável por comandar a organização no gabinete entre 2005 e 2021, teria arrecadado cerca de R$ 1,9 milhão, valor que teria sido devolvido por funcionários nomeados. Ele continua trabalhando na Câmara Municipal, no gabinete da vereadora Alana Passos, que assumiu o cargo após a renúncia de Carlos Bolsonaro.
O promotor Alexandre Murilo Graça, responsável pelo caso na fase anterior, havia afirmado que depoimentos, relatórios e laudos não demonstraram circulação de valores para as contas de Carlos Bolsonaro nem pagamentos feitos por ele.
Até a última atualização, a defesa de Carlos Bolsonaro não havia se manifestado. Jorge Luiz Fernandes também não quis comentar. Alana Passos declarou que, até onde sabia, as investigações tinham sido arquivadas.
A defesa de Ana Cristina Siqueira Valle contestou a manifestação mais recente da Assessoria Criminal da PGJ e afirmou que o procedimento contém nulidades e fatos que considera prescritos. O MPRJ declarou que a PGJ considerou o arquivamento prematuro após análise do caso e determinou a continuidade das diligências.



