MATO GROSSO DO SUL — O Discord informou que investigou e desativou, antes da morte de Lívia, de 13 anos, um servidor privado que teria sido usado por pessoas envolvidas em atividades criminosas para incentivar a automutilação. O espaço só podia ser acessado por convite e não aparecia nas buscas de outros usuários da plataforma.
A empresa não informou quantas pessoas participavam do servidor nem quem administrava o espaço. Também afirmou que o caso envolveu diferentes plataformas e que evidências compartilhadas pelo governo indicam que a morte da adolescente ocorreu em outro serviço, cujo nome não foi divulgado.
A informação foi apresentada pelo Discord na terça-feira (15), durante a segunda fase da Operação Lívia, que resultou na apreensão de seis adolescentes na segunda-feira. Segundo a Polícia Civil, os jovens faziam parte de grupos virtuais violentos conhecidos como “panelas” e tiveram participação no caso.
Investigação alcançou cinco estados
A nova etapa da operação foi conduzida pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), com apoio da investigação cibernética e do CyberLab. Os alvos foram identificados a partir da análise de celulares e de outros materiais recolhidos na primeira fase.
A delegada Anne Karine Sanches Trevizan afirmou que a polícia ainda busca identificar todas as pessoas que participavam das “panelas” e tiveram relação com a morte de Lívia. Cerca de 90% dos integrantes identificados até o momento são adolescentes. Um adulto também foi identificado.
A polícia encontrou outras possíveis vítimas. Algumas não haviam contado aos pais que estavam sendo ameaçadas ou manipuladas.
Como os grupos atuavam
De acordo com a investigação, as “panelas” tinham administradores, responsáveis por atrair novos integrantes, e participantes que acompanhavam ou incentivavam os chamados “eventos”. Os grupos disputavam reconhecimento, e conteúdos considerados mais extremos aumentavam o prestígio entre os integrantes. Para a polícia, a morte de Lívia teria sido o ponto máximo de violência buscado pelo grupo investigado.
As vítimas eram abordadas em redes sociais e plataformas de conversa. A aproximação começava de maneira amistosa e, em alguns casos, os investigados diziam ter a mesma idade ou o mesmo sexo dos adolescentes para conquistar sua confiança.
Depois, apresentavam os grupos. Quando havia recusa, poderiam começar ameaças com nomes, telefones e fotos de familiares.
Discord contesta críticas
O Discord negou falta de cooperação com as autoridades brasileiras. A empresa disse manter diálogo com a Advocacia-Geral da União (AGU), ter concordado, em princípio, com os termos apresentados pelo órgão e entregue três versões de uma proposta. Segundo a plataforma, a AGU encerrou as negociações, enquanto a falta de coordenação entre órgãos federais e de clareza sobre as medidas solicitadas dificultou as discussões.
A empresa também contestou a caracterização feita pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e afirmou que grupos ou indivíduos que promovam ou incentivem violência “não têm lugar” na plataforma. O Discord disse manter equipes especializadas para identificar ameaças, possíveis vítimas e grupos violentos, remover conteúdos e usuários que violem suas políticas e fornecer informações às autoridades quando necessário.
No Brasil, o Discord continua disponível, mas os recursos de comunicação por vídeo em tempo real estão suspensos. Mensagens, servidores, canais de voz e chamadas somente de áudio continuam funcionando, segundo a empresa. A plataforma informou ainda que seus termos exigem idade mínima de 13 anos para uso do serviço e que a Central da Família oferece ferramentas a pais e responsáveis.



