MATO GROSSO DO SUL — Sonora registrou em 2024 a maior taxa de homicídios de Mato Grosso do Sul: 74,2 mortes por 100 mil habitantes, segundo dados do Atlas da Violência 2026. A média estadual foi de 18,3 por 100 mil.
O município teve 11 homicídios entre 14.822 habitantes. Como a taxa considera o tamanho da população, cidades com menos moradores podem aparecer à frente no ranking mesmo com um número absoluto menor de mortes.
Taxas e números absolutos
Iguatemi ocupou a segunda posição, com taxa de 57,1 por 100 mil habitantes. Angélica e Taquarussu registraram 53,6; Antônio João, 51,9; Japorã, 47,6; Paranhos, 45; Jutí, 42,8; Brasilândia, 42,2; e Coronel Sapucaia, 40,9.
Quando o critério é o número total de homicídios, a ordem muda. Campo Grande registrou 175 mortes em 2024, seguida por Dourados, com 42; Três Lagoas, com 23; Corumbá, com 22; e Ponta Porã, com 21.
A violência também atinge grupos específicos. Dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública mostram que 216 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul entre 2020 e 2025. O número equivale a uma média de 36 mortes por ano, ou aproximadamente uma mulher assassinada a cada dez dias.
No caso de Gabrielli, os pais relataram abusos durante o relacionamento de oito anos e mudanças no comportamento da filha depois que ela passou a morar com o companheiro. Ela estava separada, mas voltou à casa onde havia vivido para buscar os pertences dela e do filho. Em uma dessas ocasiões, foi morta.
O marido, Diovani Alfredo Dique de Oliveira, de 31 anos, se entregou à polícia e aguardava julgamento no presídio de Coxim. “Ele pegou e falou bem assim: ‘eu matei a Gabrielli'. Na hora que ele falou aquilo, para mim acabou”, contou Sandra Maria de Oliveira, mãe da vítima.
Povos indígenas e conflitos por terra
Entre 2019 e 2024, 228 indígenas foram assassinados no estado, conforme o Atlas da Violência, uma média de 38 mortes por ano. A disputa por terras é apontada como um dos principais fatores relacionados aos conflitos envolvendo comunidades indígenas.
Na comunidade Pyelito Kue, em Iguatemi, o indígena Guarani-Kaiowá Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, foi morto após um ataque de mais de 20 pessoas armadas. Ele foi atingido na cabeça. Nove meses depois, a área permanecia sob proteção da Força Nacional.
Os moradores vivem em áreas de retomada enquanto aguardam a conclusão do processo de homologação da Terra Indígena Iguatemipegua I, já delimitada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Atualmente, 129 famílias vivem no local, recebem cesta básica e mantêm plantações de batata-doce, mandioca, abóbora e abacaxi.
Fronteira e crime organizado
Mato Grosso do Sul possui mais de 1,5 mil quilômetros de fronteira com Paraguai e Bolívia. A localização é apontada como estratégica para o tráfico internacional de drogas e armas.
Luciano Barros, doutor em Relações Internacionais e presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, afirmou que a falta de estrutura de vigilância nos países fronteiriços contribui para a expansão do crime organizado. Para ele, o enfrentamento da violência também deve envolver educação, saúde, emprego, renda e moradia, além da atuação policial.
A prevenção, segundo Barros, depende da identificação de regiões de maior vulnerabilidade antes que os problemas sociais se transformem em novos episódios de violência.



