BRASÍLIA — Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) identificou crenças, normas sociais e dificuldades nos serviços públicos que contribuem para a permanência do castigo corporal contra crianças e adolescentes no Brasil. O resultado foi lançado nesta quinta-feira (24).
A pesquisa indica que muitos pais, mães e cuidadores não interpretam bater como violência, mas como uma maneira de corrigir comportamentos ou impor limites. Também aparece entre os participantes a ideia de que a criação dos filhos é responsabilidade exclusiva da família, o que pode afastar vizinhos, parentes e amigos de situações de agressão.
O levantamento foi realizado entre 2024 e 2026 em territórios específicos do Rio de Janeiro, Manaus e Recife. A pesquisa ouviu 214 participantes e combinou revisão de literatura, grupos focais, entrevistas em profundidade e metodologias participativas. Em outra descrição da amostra, o Unicef informa que participaram 200 mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção.
Crenças e sobrecarga familiar
Entre os entrevistados, a discussão muitas vezes não era sobre bater ou não, mas sobre quais práticas seriam aceitáveis para disciplinar. Palmadas e outras condutas consideradas “leves” foram diferenciadas de formas vistas como mais graves de violência.
Em comunidades afetadas pela violência armada, o castigo físico também foi associado à ideia de proteção. Alguns participantes relataram que ser rígido, inclusive com o uso da violência, seria uma forma de evitar que as crianças se tornassem vítimas ou se envolvessem em situações violentas.
O estudo encontrou sinais de mudança, especialmente entre mães mais jovens. Muitos participantes disseram se arrepender depois de episódios de agressão e afirmaram querer construir relações sem violência, embora essa intenção ainda apareça mais como desejo do que como prática frequente.
A sobrecarga das mães também foi apontada como um fator relacionado ao problema. O estresse do cuidado e as pressões socioeconômicas podem tornar mais comuns respostas como tapas, beliscões e gritos diante de comportamentos desafiadores. Cansaço, tensão e perda momentânea do autocontrole foram associados aos episódios de violência.
Para Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil, a permanência do castigo corporal está ligada tanto às escolhas individuais quanto às crenças compartilhadas. “Muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar, disciplinar e corrigir”, afirmou.
Apoio às famílias
Os participantes relataram dificuldades para lidar com birras, desobediência e outras situações do desenvolvimento infantil. Muitos disseram não conhecer alternativas às punições físicas ou verbais.
O estudo também identificou falta de capacitação dos profissionais da rede de proteção para orientar as famílias sobre educação sem violência. Outra dificuldade é fazer com que os serviços públicos cheguem antes do agravamento das tensões familiares, e não somente depois que a agressão ocorreu.
Campanhas públicas sobre o tema foram desconhecidas por parte dos participantes ou consideradas distantes da realidade das famílias. Segundo o levantamento, as iniciativas também foram vistas como insuficientes quando apenas dizem o que não deve ser feito, sem apresentar alternativas práticas.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados pelo Unicef registraram, apenas em 2025, mais de 60 mil casos de maus-tratos ou lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes. O número representa aumento de 106% em comparação com o ano anterior.
O Unicef recomenda incluir a chamada parentalidade protetiva em políticas de Primeira Infância, cuidados, assistência social e enfrentamento às violências. Entre as orientações estão fortalecer a prevenção, capacitar continuamente os profissionais, criar campanhas que ensinem formas de educar sem violência, ampliar o envolvimento dos homens no cuidado e promover debates comunitários sobre a normalização das agressões.
Por ser qualitativo, o estudo não representa estatisticamente a população brasileira. De acordo com o Unicef, os resultados ajudam a compreender crenças, normas sociais, emoções e condições relacionadas à persistência do castigo corporal.



