As celebrações do 7 de Setembro mudaram de formato durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Os desfiles e cerimônias oficiais passaram a incluir mobilização política, demonstrações militares e discursos de confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional.
Em 2019, o desfile na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, manteve o protocolo oficial, mas foi usado para projetar apoio ao presidente. O palanque reuniu empresários de radiodifusão, como Silvio Santos, Edir Macedo e Marcelo de Carvalho, além de 12 ministros de Estado, entre eles Sergio Moro. Bolsonaro deixou o Rolls-Royce presidencial, caminhou entre espectadores, convidou uma criança para entrar no veículo e regeu a banda das Forças Armadas. O evento custou R$ 971,5 mil, contra R$ 816,8 mil no ano anterior.
Em 2020, a pandemia de Covid-19 levou à suspensão do desfile tradicional. A programação oficial foi reduzida a uma cerimônia de hasteamento da Bandeira Nacional nos jardins do Palácio da Alvorada, com apresentação da Esquadrilha da Fumaça. Bolsonaro, porém, aproximou-se de apoiadores sem máscara, distribuiu apertos de mão e participou de aglomerações.
Escalada de tensão em 2021
Em 10 de agosto de 2021, a Marinha levou tanques e veículos blindados à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes, no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados votaria a PEC 135/2019, sobre o voto impresso auditável. O Ministério da Defesa e a Marinha disseram que a movimentação serviria para entregar ao presidente o convite para a Operação Formosa. Lideranças políticas e integrantes do Congresso e do STF classificaram o ato como intimidação ao Legislativo. A PEC foi rejeitada naquela noite.
No 7 de Setembro daquele ano, Bolsonaro discursou em Brasília e na Avenida Paulista. Em São Paulo, chamou Alexandre de Moraes de “canalha” e afirmou: “Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá”. Também declarou que não aceitaria ser preso nem derrotado. No dia seguinte, Luiz Fux afirmou que o descumprimento deliberado de decisões judiciais poderia configurar crime de responsabilidade. Em 9 de setembro de 2021, o Palácio do Planalto divulgou a “Declaração à Nação”, após mediação de Michel Temer.
Uso eleitoral em 2022
No Bicentenário da Independência, os atos oficiais foram combinados com atividades de campanha. Em Brasília, depois do desfile, Bolsonaro discursou em um trio elétrico instalado próximo ao palanque oficial. No Rio de Janeiro, a programação militar foi transferida para a orla de Copacabana, onde houve Parada Naval, sobrevoos da Força Aérea e salvas de canhão do Exército. Luiz Fux, Rodrigo Pacheco e Arthur Lira não subiram ao palanque oficial.
As consequências chegaram à Justiça Eleitoral. Em julgamento concluído no final de outubro de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral condenou Jair Bolsonaro e Walter Souza Braga Netto por abuso de poder político, abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação social. A decisão impôs inelegibilidade por oito anos.
Os discursos e atos de 2021 e 2022 também foram incluídos em investigações do STF sobre atos antidemocráticos e tentativa de golpe de Estado. A Procuradoria-Geral da República, sob gestão de Paulo Gonet Branco, apontou as manifestações de 7 de Setembro de 2021 como parte de uma estratégia de pressão sobre as instituições democráticas.



