CUBATÃO — A saída de Regis Marques Ribeiro da direção da Escola Estadual Parque dos Sonhos mobilizou estudantes, famílias e profissionais da unidade. Mães fecharam o portão para pedir o retorno do diretor, enquanto alunos fizeram uma passeata pelas ruas do bairro. As famílias também organizaram um abaixo-assinado.
A mudança ocorreu em 12 de agosto de 2026, quando a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo determinou o fim da designação de Regis para a direção. A decisão veio após um processo administrativo disciplinar aberto em 2022 para apurar procedimentos de contratação e execução de obras na escola.
Regis continua vinculado à rede estadual, onde é concursado como professor e diretor. Depois de cumprir uma suspensão de 45 dias, passou a trabalhar como diretor da Escola Estadual José da Costa, também em Cubatão. Ele informou que ficou sem salário durante o afastamento e estima uma redução mensal de cerca de R$ 3 mil com a mudança de função.
Disputa sobre as obras
O processo envolveu a reforma do piso e uma intervenção para adequar a escola às exigências do Corpo de Bombeiros. Regis afirma que os serviços foram concluídos, que não houve desvio de recursos e que as estruturas permanecem em uso. Para ele, a saída da direção não deveria estar relacionada a obras que, em sua avaliação, foram finalizadas.
A Unidade Regional de Ensino de Santos afirma que as infrações foram comprovadas durante a apuração. Segundo a Seduc-SP, Regis teve direito ao contraditório e à ampla defesa, e o recurso apresentado por ele foi analisado e indeferido. A secretaria também informou que a penalidade considerou a manifestação da Procuradoria-Geral do Estado e a ausência de antecedentes disciplinares.
A defesa sustenta que ainda há recurso pendente na esfera administrativa, apresentado ao secretário estadual da Educação, Renato Feder, em agosto. Se a decisão for mantida, Regis pretende recorrer ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, antes de avaliar uma possível ação judicial.
O ex-diretor relaciona o processo a conflitos anteriores com a administração estadual. Em 2017, ele e gestores de outras escolas participaram de uma mobilização após receberem sardinha e atum para a merenda. Em 2022, um relatório do núcleo de obras apontou problemas de limpeza, manutenção e gestão da estrutura física. Regis reconhece que perdeu a calma em uma reunião, mas afirma que novas verificações foram feitas sobre prestações de contas já aprovadas.
Uma escola em transição
Regis assumiu a Parque dos Sonhos em 2016, quando a unidade havia perdido mais da metade dos estudantes. Ao longo de quase dez anos, a escola ampliou projetos, fortaleceu a participação de alunos e famílias e desenvolveu ações voltadas à escuta, ao acolhimento e à não violência.
Em 2025, a unidade foi eleita a melhor escola do mundo na categoria Superação de Adversidades do World’s Best School Prizes. Atualmente, tem 1.205 estudantes. Após o reconhecimento, a escola se uniu a uma unidade vizinha, passou a oferecer também o ensino médio e começou a integrar duas comunidades escolares.
A integração trouxe dificuldades nos primeiros meses, com brigas, depredações e outros problemas de convivência. Segundo Regis, os conflitos diminuíram ao longo de 2026 e mais situações passaram a ser resolvidas pelo diálogo, embora o processo ainda não estivesse concluído quando ele deixou o cargo.
A escola mantém mais de 40 projetos curriculares e extracurriculares. A programação reúne atividades esportivas, artísticas e de comunicação, como capoeira, teatro, fotografia, robótica, atletismo, voleibol, handebol, patinação artística, ginástica acrobática, karatê, banda marcial e produção de jornal e podcast.
Entre os resultados citados estão premiações estaduais, nacionais e internacionais na patinação artística, o título do Campeonato Estadual Paulista de Vôlei Masculino e o Prêmio Amigo das Bandas. A unidade também recebeu a certificação prata do Best School to Work, da T4 Education.
Para 2027, estavam previstas novas atividades, incluindo canoagem no Rio Santana, escalada, coral em inglês e uma parceria voltada à saúde mental dos professores. A escola já havia conseguido 30 canoas. Também havia a intenção de voltar a disputar o World’s Best School Prizes em 2028.
Rosana dos Santos Santana assumiu a condução da unidade durante a escolha de uma nova direção. Ela trabalha na escola desde 2014 e acompanhou a trajetória como coordenadora e vice-diretora. A Seduc-SP, por meio da Unidade Regional de Ensino de Santos, iniciou entrevistas com candidatos ao cargo.
Regis afirma que pretendia preparar alguém da própria equipe para uma transição gradual. Mesmo fora da direção, continuará ligado à escola: suas filhas, de 12 e 14 anos, estudam na unidade, no 6º e no 9º ano. Ele também disse que pretende permanecer próximo da comunidade escolar e não descarta atuar na Associação de Pais e Mestres.
Experiência em outras redes
A experiência da Parque dos Sonhos também passou a ser usada como referência fora da unidade. Em janeiro de 2026, a Seduc-SP anunciou a Rede Escola dos Sonhos, iniciativa que prevê levar práticas da escola a 100 unidades estaduais de regiões de maior vulnerabilidade.
A proposta é acompanhada pelo Conviva, o Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar, e está organizada em formação continuada, acompanhamento territorial e implementação de práticas pedagógicas e de convivência. Regis participou das primeiras formações, mas depois sua presença se tornou pontual.
Ele também fundou o Instituto da Não Violência, com a proposta de compartilhar princípios e práticas com outras redes de ensino no Brasil e no exterior. Há interesse relatado de educadores de Guiné-Bissau e de Barcelona, na Espanha, além de uma conversa com um diretor do Uruguai. A meta apresentada por Regis é chegar a 10 mil escolas até 2030.
A continuidade do trabalho na Parque dos Sonhos dependerá da forma como as práticas desenvolvidas ao longo dos anos serão incorporadas à equipe, aos estudantes e às famílias. A mudança de direção ocorreu antes da transição planejada por Regis, mas parte da experiência já circula por outras escolas por meio da Rede Escola dos Sonhos e do Instituto da Não Violência.



