BRASÍLIA — O Fundo Brasil direciona recursos para projetos de justiça climática voltados a povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. A iniciativa ocorre por meio do programa Raízes, criado em 2023 para apoiar grupos que enfrentam os efeitos da crise climática e atuam na preservação dos territórios.
A diretora executiva da fundação, Allyne Andrade, afirma que os recursos destinados a soluções climáticas e adaptação nem sempre chegam às populações mais próximas dos territórios afetados. Segundo ela, o Fundo Brasil busca ocupar lacunas de financiamento e oferecer também apoio técnico e programático.
Criado por Abdias do Nascimento, Margarida Genevois, Rose Muraro e Dom Pedro Casaldáliga, o Fundo Brasil é uma fundação independente que financia organizações da sociedade civil lideradas por pessoas e comunidades diretamente afetadas por violações de direitos.
Como funciona o programa Raízes
As doações estruturantes são distribuídas por meio de editais públicos. Organizações que atuam nos territórios apresentam projetos, e a seleção é feita com participação de comitês externos formados por especialistas. Esses grupos avaliam quais propostas têm maior necessidade de financiamento.
O programa também mantém aportes emergenciais de resposta rápida para proteger lideranças em territórios ameaçados. Entre os conflitos mencionados por Allyne estão a grilagem, o avanço ilegal da fronteira agrícola e o desmatamento associado à mineração e à atuação de madeireiras.
Há ainda uma linha destinada a situações de extremos climáticos, como a emergência registrada no Rio Grande do Sul, para ajudar comunidades a reagir rapidamente.
Desde 2023, o Raízes destinou mais de R$ 6 milhões diretamente a projetos e respostas emergenciais voltados a povos e comunidades tradicionais.
Doações e outras áreas de atuação
O Fundo Brasil completa 20 anos em 2026. Nesse período, doou R$ 141 milhões para 2,5 mil iniciativas. Em 2025, foram R$ 32 milhões destinados à sociedade civil organizada, volume quase 20% maior que o registrado em 2024.
A fundação também atua em outras frentes de direitos humanos. O Labora apoia o trabalho digno, a defesa de direitos trabalhistas e o combate ao trabalho análogo à escravidão. A linha inclui trabalhadores de aplicativo, do cuidado e empregados domésticos.
Entre as prioridades estão o fortalecimento da sociedade civil e da democracia, a defesa dos direitos raciais, o enfrentamento ao racismo e ao racismo digital, os direitos digitais e a proteção de pessoas LGBTQIAPN+.
Outra frente apoia defensores de direitos humanos em temas como cultura, segurança e resposta rápida diante de ameaças. A instituição também trabalha no combate à violência de gênero e na organização de trabalhadoras e mulheres.
Na área de justiça criminal, as ações incluem a redução da prisão provisória e o combate à tortura no cárcere. A fundação apoia organizações que atuam no Plano Pena Justa, com o objetivo de transformar o estado de coisas inconstitucional e contribuir para um sistema prisional mais humanizado.
Próximos passos
Allyne Andrade afirma que pretende aproximar a fundação dos movimentos sociais e das organizações da sociedade civil. Ela também defende uma comunicação estratégica com esse conjunto de atores e uma formulação de direitos humanos conectada aos desafios atuais.
A diretora menciona uma perspectiva decolonial, antirracista, com diversidade e inclusão, além do respeito às cosmovisões e cosmogonias dos povos e comunidades tradicionais.
Como parte das atividades pelos 20 anos do Fundo Brasil, será realizada uma conferência com ativistas, movimentos sociais, pesquisadores e representantes da iniciativa privada. O encontro deverá discutir os desafios do país na área de direitos humanos e os caminhos da filantropia para os próximos 20 anos.



